25 de fevereiro de 2013

O valor da informação na crise e nas grandes coberturas

25 de fevereiro de 2013

Deslizamento de terra na Imigrantes, foto TV Tribuna

Por Nereu Leme

Crise, depois de resolvida, sempre deixa algum ensinamento. Mesmo que seja uma triste lembrança, alertando para não se repetir as mesmas ações que desaguaram na crise. “Nunca mais desço a serra em dia de chuva”.
No meio da catástrofe que se abateu sobre o sistema Anchieta/Imigrantes e toda a baixada santista, sexta-feira (13?), isto é 22, houve uma vítima fatal, prejuízos materiais, desabrigados, muita dor e cansaço e falta de informação.
Muitas pessoas, como eu e minha mulher, ficaram horas intermináveis nos gigantescos congestionamentos. De Moema até Bertioga, percurso de 125 quilômetros, levamos 12 horas de uma viagem torturante. Nos estacionamentos, em que se transformaram as rodovias da baixada, tinha idosos, crianças, mulheres grávidas, pessoas doentes. Todos irmanados pela chuva arrasadora.
Sobrou revolta. Faltou fiscalização, polícia na rua, ajuda e principalmente informação. O que me lembrou das grandes coberturas que vivenciei no saudoso Jornal da Tarde (fechado em 2012) e na Folha de S. Paulo, onde trabalhei por 12 anos.
Voltando aos congestionamentos, não se via a polícia rodoviária, ninguém da ecovias (assim, minúsculo mesmo). Os caminhoneiros desligavam seus trambolhos no meio das rodovias (não no acostamento e sim na pista central de rolamento), apagavam todas as luzes e dormiam. Provocavam, com a chuva, paralisações de até cinco horas, no mesmíssimo lugar. Os espertalhões, mau condutores de carros e caminhões, rodavam pelo acostamento e até na contramão, em alguns locais. Risco para os pobres andarilhos, obrigados a caminhar na chuva e no escuro, se esquivando dos motoristas infratores.
Informações desencontradas. Quando entrei na rodovia dos Imigrantes, as placas de sinalização da Ecovias nos orientavam a seguir para Santos e atravessar a balsa para o Guarujá, pois a rodovia Cônego Domênico Rangoni (antiga Piaçaguera-Guarujá) estava congestionada por caminhões nas filas dos terminais portuários. Só se esqueceu de informar que a espera na fila da balsa era de mais de uma hora e que com a chuva, ninguém conseguiria superar os alagamentos para chegar a Santos. Ficamos quatro horas no congestionamento da entrada de Santos.
Ninguém para informar o que fazer, para onde ir. A Imigrantes estava bloqueada. A Anchieta estrangulada. O dilema era enfrentar a chuva assustadora e a serra instável para retonar a São Paulo, ou seguir pela Domênico Rangoni para o Guarujá e Bertioga. O site da Ecovias tinha informações confusas que não ajudavam ninguém a decidir o que fazer. Mais cinco horas estacionado em Cubatão, esperando os caminhoneiros acordarem e tirarem seus bólidos do meio da rua.
Informação de valor mesmo só o programa de trânsito da rádio Sul-América. Exemplo de cobertura jornalística com participação ativa dos ouvintes. Notícias de primeira que infelizmente só serviram para os atingidos se solidarizarem uns com os outros, pois não havia para onde fugir, nenhum hotel, nenhum posto de gasolina, nenhum parador, nenhum estacionamento, nem mesmo um desvio e sequer ajuda oficial.
Informação de valor também houve na cobertura da TV Tribuna. Mas, que no nosso caso, só conseguimos assistir no sábado, no pós-enchente.
O caso me recordou o empenho e dedicação dos jovens repórteres da velha escola romântica do jornalismo brasileiro.
Em 1971, quando ainda era foca no Jornal da Tarde, em um dia de chuva e congestionamento monstruoso na cidade de São Paulo, nosso chefe de reportagem, Miguel Jorge (que tempos depois virou ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e o editor Moisés Rabinovich (hoje no Diário do Comércio de São Paulo, onde trabalham também meus amigos Chico Lelis, Carlos de Oliveira e Eimar Mascaro) mandaram todos os repórteres, de todas as editorias, para a rua, entrevistar motoristas presos nos congestionamentos. Uma bela cobertura da indignação.
Três anos depois, em fevereiro de 1974, uma tragédia movimentou toda a redação da Folha de S. Paulo para cobertura do incêndio do Edifício Joelma. Também nesse caso, o chefe de reportagem João Batista Lemos e o editor Jaime Negreiros (falecido) colocaram na rua (para trabalhar) todos os repórteres de todas as editorias do jornal. Local, economia, esportes, internacional, política, ilustrada.
Depois que todos entregaram suas respectivas matérias, o editor Jaime Negreiros mandou todos para casa e ficou sozinho fechando a edição inteira do dia seguinte.

 

O fim da minha Brasília Amarela

23 de março de 2011

Folha de S. Paulo

por Nereu Leme

Ainda no tempo das carroças, a Brasília foi um carro que fez sucesso entre 1973 e 1982. Projetada no Brasil, em cima do chassi do Fusca, era quase um monovolume (alguns a consideram o primeiro hatchback). O motor era traseiro, praticamente dentro do habitáculo dos passageiros sem uma vedação antirruído adequada. Dava a impressão que o motor ficava pendurado no ouvido do motorista e dos passageiros.

Foi um dos primeiros Volkswagens a serem projetados e construídos fora da matriz alemã (o também brasileiro SP2, de 1972, foi o primeiro). A Brasília também foi fabricada no México.

O carro tem muitas histórias interessantes, como a música do extinto conjunto Mamonas Assassinas (Brasília Amarela) ou o episódio envolvendo o repórter free-lancer da Quatro Rodas na época, Cláudio Larangeira, que conseguiu fotografar o carro perto da fábrica. Os seguranças da Volkswagen atiraram contra seu carro, causando comoção na imprensa nacional. Enquanto Larangeira esteve vinculado ao lançamento, o meu caso foi com o fim desse produto automotivo.

Estava na Folha de S. Paulo, no final de 1981, escrevendo sobre carros no caderno de Economia (hoje Dinheiro), antes de existir o caderno de Veículos. Recebemos uma dica de que a Volkswagen do Brasil iria parar a fabricação da Brasília e saí a campo para checar a informação.

Consultei vários fornecedores que confirmaram o fim do modelo. Liguei para a assessoria de imprensa da fábrica. Naquela época, a linha de montagem da Brasília e do Fusca ficava bem em frente às salas envidraçadas do Departamento de Comunicação Social.

Fui atendido pelo assessor Mauro Forjaz. Simpático e elegante, ele ficou em cima do muro: não confirmou nem desmentiu. E completou com uma justificativa marota (que descobri ser marota muito tempo depois):

“Aliás, tem uma Brasília passando na linha de montagem, bem na minha frente, neste exato momento”, disse ele.

O jornal bancou as informações de nossas fontes e a matéria sobre o fim da Brasília saiu na capa, página inteira, do caderno de economia.

O carro realmente foi descontinuado e, mais tarde, o Mauro Forjaz – que hoje mora no Rio de Janeiro – me confidenciou que havia me dito apenas a verdade.

Só omitiu que aquela Brasília que passava na linha de montagem, em frente à sua sala, seria a última a ser fabricada.

Nessa boa época dos “quatro cavaleiros do apocalipse”, o setor era coberto pelo S. Stefani (Gazeta Mercantil, hoje editando sua revista Autodata), pelo Chico Lelis (O Globo, hoje aditando o caderno Dcarro do Diário do Comércio), Alzira Rodrigues (O Estado de S. Paulo, sucursal Grande ABC, hoje também na Autodata) e eu, pela Folha.

Com um mercado bem fechado – quase uma reserva de mercado- as quatro grandes montadoras de veículos, Volkswagen, Ford, GM e Fiat divulgavam o que bem entendiam. Escondiam informação e adequavam os números dependendo da situação momentânea da economia e do mercado.

No caso, por exemplo de motocicletas, as apenas duas montadoras, Honda e Yamaha, se recusavam a declarar volume de vendas, investimentos ou participação de mercado. Em uma ocasião, a Honda informava que tinha mais de 80% do mercado. Em outra, que dominava quase 90% das vendas de motos novas. A Yamaha não ficava atrás. Falava em mais de 20% de share (no primeiro caso) ou quase 20%, no segundo. O total de vendas no mercado interno sempre passava de 100%.

E às vezes, o repórter levava bronca sem culpa no cartório, por matéria feita por algum jornalista foca, como aconteceu comigo. Essa história foi contada pelo meu amigo Chico Lelis, na newsletter Jornalistas & Cia (edição automotiva), quando o vice-presidente da GM, André Beer reclamou em público que minha matéria da Folha era mentirosa. Ele depois me pediu desculpas, também pública, quando soube que eu não havia sido o autor da falácia.

Voltando à Brasília (não à cidade, mas ao carro), a Volkswagen esperneou, tentou remendar e o jornal me fez escrever outra matéria, dizendo que as concessionárias iriam garantir a reposição de peças para a Brasília. O título, feito talvez a pedido do jornal para limpar sua barra, foi “Brasília não morre, o problema é a imagem”, publicada no dia 4 de abril de 1982.

Depois, em janeiro de 1983, foi a vez de anunciarmos, na Folha, o fim do Landau, da Ford, e a era dos carrões estilo anos 50.

Jornalismo de chumbo

17 de dezembro de 2010

Por Nereu Leme

Sou do tempo do chumbo. Quando o jornal era composto em máquinas linotipo, com uma caldeira de chumbo derretido que formava as linhas com as letras e palavras da matéria.

O tempo também era de chumbo, em plena ditadura militar. A censura era implacável, o que nos tornava mais politizados, combativos e sonhadores. Sonhos de democracia e liberdade de expressão.

A vida profissional não era nada fácil. Havia menos gente procurando emprego, mas a oferta de vagas também era menor. Não havia tanto controle sobre nível de emprego. Então, na verdade, ninguém se baseava pelos índices, mas sentia na carne a dificuldade de ganhar a vida honestamente.

Uma dessas dificuldades da vida, não minha, mas de um amigo querido, me levou a ter o primeiro contato com jornal.

Antonio Carlos estudava comigo no ginásio (que corresponde hoje da quinta à oitava série do primeiro grau). Entrar no ginásio também não era mole. Havia o famigerado exame de admissão, espécie de vestibular universitário. Lembro-me que eu estava no último (quarto) ano do primário e minha professora Nilza me ofereceu um cursinho de admissão de graça, com sua irmã, também professora. Meu pai não permitiu. Achava que eu não precisava estudar. Era o filho caçula e fazia companhia para meu pai, aposentado, depois de vários derrames cerebrais – o que por fim o levou em 1964 – enquanto minha mãe trabalhava para sustentar a casa. Então eu fugia todo dia após o almoço. Escondia os livros no jardim de casa e saía dizendo que ia jogar bola, o que ele consentia. Achava que eu precisava me divertir e não apenas ficar dentro de casa, tomando conta de um homem doente. Na verdade, eu saía para estudar.

Era o ano de 1962. No início da década de 1960, o movimento operário lutava por aumentos salariais e pelo 13º salário. Ainda sem muita clareza política.

Na música, a década de 1960 ficou conhecida como Anos Rebeldes, graças aos grandes movimentos pacifistas e manifestações contra a Guerra do Vietnã. Em 1962, chega ao Brasil o compacto simples Love Me Do, dos Beatles.

E o Antonio Carlos, que ajudava a sustentar a família (ele, a mãe e uma irmã menor), completa 17 anos e é demitido do emprego. Naquela época, nenhuma empresa queria contratar um jovem de 17 anos, pois ele poderia ser chamado para servir o exército e o empregador era obrigado a manter sua vaga até que o jovem fosse dispensado do serviço militar. Hoje ainda é assim, mas o peso é menor ou faz menos estragos.

Eu já tinha sido office-boy e estava empregado como auxiliar de escritório na indústria Molas Sueden, no bairro paulistano do Brás. Trabalhava de paletó e gravata e tinha orgulho do slogan “Molas Sueden nunca cedem”. Anos mais tarde, quando me tornei repórter na Folha de S. Paulo, entrevistei a dona da empresa, Miriam Lee, que assumiu o comando da Molas Sueden, após a morte do marido.

Meu amigo logo apareceu com uma novidade: um emprego bom para nós dois, onde poderíamos ganhar o quanto quiséssemos. Mas, precisava de um capital inicial. Desconfiei da mamata, mas como eu não precisava do emprego, (meu pai não queria que eu estudasse e nem trabalhasse mesmo), embora minha família sempre tenha sido muito pobre, resolvi ajudar o amigo de fé.

No dia seguinte fui eu, ainda de terno e gravata, à Molas Sueden pedir demissão. Com o dinheiro, recebido na boca do caixa da empresa, fomos os dois para a rua Direita, centro velho de São Paulo.

O bom serviço, descobri finalmente, era comprar jornais velhos nos escritórios e depois revender para os depósitos de papel e papelão. De repente, me vi, de terno e gravata, andando pela rua Direita, com uma pilha de jornais nas costas, enfrentando gente passando para todo lado e um calor infernal. Fora a vergonha de entrar nos escritórios e perguntar para as belas recepcionistas se a empresa não tinha jornal velho para vender. Claro que desisti logo e também, como o Antonio Carlos, fiquei desempregado.

Por ironia do destino, alguns anos depois, esse episódio voltou para assombrar meus pensamentos.

Virei bancário. Em plena ditadura militar, já por volta de 1967, fui trabalhar no Banco Brasul, depois comprado pelo banco Itaú, na rua 15 de Novembro.

Cuidava da compensação de cheques. Uma chatice que eu fazia sozinho e que dava um trabalhão. Na hora de fazer a contabilidade do dia, fechar o caixa, alguém tinha que deixar seu trabalho em outra sessão e me ajudar, pois, segundo as regras do banco, eram necessárias duas pessoas para somar e conferir os resultados.

O gerente da agência conseguiu finalmente me arrumar um ajudante, o Tonhão, que precisava de um segundo emprego, porque queria juntar dinheiro para se casar. Trabalhávamos apenas das 13 às 19 horas e Tonhão enfrentava outra jornada de trabalho pela manhã, que descobri onde era mais tarde.

Ficamos amigos e ele me confidenciou que achava o meu português muito bom e perguntou o que eu fazia pela manhã, já que trabalhava apenas à tarde e estudava à noite.

- Durmo, respondi galhofamente.

Então veio a proposta e, associada, a imagem do garoto carregando a pilha de jornais nas costas pelo centro da cidade.

- Você não quer trabalhar no jornal? Eu respondi que tudo bem, pois quando se é jovem, sem compromisso, já tendo enfrentado as pilhas de jornais velhos, topa-se qualquer coisa. Como muitos jovens da minha época, já tinha sido engraxate, carregador em feira-livre, ajudante de sapateiro, ajudante de alfaiate e por aí afora.

No dia seguinte, às oito horas da manhã, estava eu na rua do Carmo, em frente ao Diário Popular. Bem, não era para carregar jornal, embora o trote para os focas da redação e da revisão, onde fui trabalhar, era buscar a Calandra na oficina. Uma máquina enorme, de algumas toneladas, que fazia o molde para impressão das páginas do jornal, e outras brincadeiras.

Não era mesmo para carregar jornal e sim para ser revisor. Mas, usei muita folha de papel jornal de restos da bobina (onde o papel é enrolado), antes de ser utilizado para impressão, para dormir em cima das mesas da revisão.

Com o bom português que o Tonhão achava que eu tinha, virei revisor e logo em seguida, por força de uma lei do Médici, consegui o registro de jornalista profissional. Essa condição nos atribuía nível universitário, o que, por comodidade e falta de dinheiro, me fez desistir do curso de direito.

Aí, surgiu outro amigo, Luiz Carlos Fusco (já falecido) que gostou do trabalho de revisor e logo descobriu que os Diários Associados precisavam desse tipo de revisão para os jornais Diário de S. Paulo (matutino que existe até hoje, depois que o título foi comprado pelo Diário Popular) e Diário da Noite (à época um vespertino).

Fomos lá os dois nos candidatarmos às eventuais vagas. O chefe da revisão, um professor de boa idade foi logo nos advertindo:

“Aqui só trabalham pessoas com mais de 30 anos (tínhamos 18 para 19 anos), a não ser que vocês sejam gênios em português”, disse o professor Andrade.

Não éramos gênios, mas ele gostou de nossa ousadia. Nem sei se fomos bem no teste, mas Andrade nos aceitou. Abrimos caminho para outro jovem, contratado tempos depois: o jornalista Augusto Nunes.

Quando consegui esse emprego, também de revisor, nos Diários Associados – aquele do Chateaubriand – precisei dormir muitos meses em cima de mesa. Morava em Vila Nhocuné, zona Leste de São Paulo, com minha irmã Neusa, e o último ônibus saía da praça Clóvis Bevilácqua (que na década de 70, com o surgimento do Metrô, foi unida à praça da Sé e desapareceu) à meia-noite.

Muitas vezes fui correndo da rua Sete de Abril até a praça Clóvis Bevilácqua, na tentativa de pegar o último ônibus. Diante do insucesso, dormia em cima das mesas da revisão do Diário Popular – o Dipo, usando folhas de bobina (papel de jornal ainda não impresso), para me cobrir. Levantava-me bem cedo, tomava café na padaria da esquina e começava a trabalhar.

Mesmo quando conseguia pegar o último ônibus para Vila Nhocuné, a jornada era difícil. Como eu entrava às seis da manhã no Dipo, precisava tomar o primeiro ônibus que para o centro da cidade. Esse primeiro transporte do dia rea conhecido como ônibus negreiro porque circulava ainda na madrugada escura.

Morava com minha irmã no Jardim Eliane, numa posição geograficamente alta, que nos permitia, da área da casa, ver a longa avenida que subia até o ponto final do ônibus. Eu ficava na cozinha tomando café e minha irmã na área, cuidando da chegada do ônibus. Quando os faróis do ônibus apontava no alto da avenida, vindo em nossa direção, ela gritava: “aí vem!”

Eu largava tudo e saía correndo para o ponto de parada. Quando chovia, minha descida era praticamente uma aventura de esqui no barro.

Apesar das dificuldades, especializei-me em revisão e logo outro amigo, também revisor, me convidou para fazer um teste para trabalhar na revisão do Estadão, onde ele era chefe do departamento. Fui aprovado. Deixei o Diário Popular e comecei a fazer jornada dupla, nos Diários Associados e no Estadão.

O serviço era tão chato que no sétimo dia de trabalho pedi demissão. Subi do primeiro andar, onde ficava a revisão, para o sexto andar, redação do Jornal da Tarde para pedir emprego de repórter.

Aí sim, virei jornalista de fato, ou pelo menos repórter e comecei minha missão de escritor ou escrevinhador, no sentido de rabiscar obras, obviamente.

Passei, então, a trabalhar sob as ordens do chefe de reportagem, Miguel Jorge (atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e do editor de cidades Moisés Rabinovich, hoje editor-chefe do Diário do Comércio de São Paulo.

Algum tempo de depois troquei o Jornal da Tarde pela Folha de S. Paulo, etapa relatada na história publicada neste blog em 22 de março de 2010, no link http://www.contandonossahistoria.com.br/index.php/2010/03/22/ressurreicao-pos-folha/.

Os dois lados da verdade!

30 de agosto de 2010

Por Nereu Leme

A busca da verdade é a máxima do jornalismo. E a verdade é uma só!

Mas, felizmente para mim, a verdade tem lá seus pontos de vista. Quando cheguei à Folha de S. Paulo, em 1972, uma armadilha sobre essa busca da verdade me espreitava. Entrei no jornal por indicação do Júlio Moreno, que trocava a Folha pelo Jornal da Tarde, enquanto eu fazia o caminho inverso. No JT era estagiário, e no Folhão já comecei com status de repórter especializado em transportes.

O teste de admissão era sui generis. Talvez fácil, porém ardiloso. Fui contratado pelo Henrique Nunes, editor de geral (ou Cidades), mas meu teste foi definido pelo editor de Educação Perseu Abramo, editoria onde Lilian Wite Fibe começou sua carreira.

Primeiro, condensar em 20 linhas um telex de mais de 100 linhas (à época ainda não havia Internet, e-mail ou um simples fax). Fui logo cortando pelo pé e resumindo o que havia entendido. Dei sorte.

O segundo – e aí estava a pegadinha – era fazer uma reportagem sobre a cantina do jornal, que todo mundo chamava de “cai duro”. Tempos depois montaram uma lanchonete estilo anos 50, que logo foi batizada de “Boris in the Box”, numa referência ao editor do jornal, Bóris Casoy e ao fastfood Jack In The Box, e um restaurante mais sofisticado que era nosso “Fria’s”.

Nem preciso explicar que a tal cantina (a redação do Folhão ficava no quarto andar enquanto a Cantina, no segundo) parecia um subway. Não os sanduíches gostosos dessa cadeia fast food, mas underground mesmo.

Como falar bem da cantina, e ser admitido, sem mentir para mim mesmo que a tinha reprovado? Primeira administração de crise da minha carreira jornalística. Talvez esteja aí o início da minha experiência em administrar crises de comunicação para empresas, na Casa da Notícia. Peguei o lado positivo do assunto.

A lanchonete oferecia comida rápida (o conceito de fast food estava apenas começando no Brasil) para quem precisa escrever sua matéria na hora e não tinha ainda conseguido tomar um lanche ou almoçar decentemente. À época também não tínhamos a consciência da refeição saudável que temos hoje. Então, servia pão com mortadela, hambúrguer e por aí afora. Ou seja, para se alimentar numa hora de aperto, o jornalista não precisava ir para a rua, procurar restaurantes, bares ou botecos. Tudo estava ali, à mão, na “nossa” lanchonete. Ok deu certo e fui contratado.

Tempos depois, crise pior.

Antes de me transferir para a Folha, fiz uma grande matéria no Jornal da Tarde criticando a localização e péssimas condições de funcionamento da Estação Rodoviária de São Paulo. Não estou falando das três novas (mais ou menos) Barra Funda, Jabaquara e Tietê. E sim, da antiga estação da praça Júlio Prestes, na Luz (centro). Por mera coincidência, a rodoviária, construída em 1962, pertencia aos empresários Carlos Caldeira Filho e Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, meu patrão, morto em abril de 2007.

A primeira estação rodoviária de São Paulo funcionou até 1982, quando foi inaugurado o Terminal Rodoviário do Tietê, na zona norte. Posteriormente, o antigo prédio foi vendido a um grupo de empresários que instalou ali um shopping popular. No governo Serra o prédio foi desapropriado para dar lugar a um prometido teatro.

Matéria de página inteira, como era comum no JT. Analisava a rodoviária num daqueles fins de semana prolongados. Calor, corredores abarrotados de gente sentada em cima das malas, ônibus quebrados ou atrasados e filas intermináveis nos guichês de venda de passagens. Um caos anunciado.

Já na Folha, nosso chefe de reportagem, João Batista Lemos, atendendo pedido da diretoria do jornal, chama seu especialista em transportes e pede uma matéria rebatendo as críticas “de um repórter abusado do JT”.

Suei frio.

Ninguém sabia quem era o abusado, felizmente, porque a matéria não saiu assinada. Minhas reportagens no JT, sempre de página inteira, tinham pelo menos 100 linhas de texto, mais fotos e gráficos. Tamanho de matéria inimaginável hoje em dia, com a correria da vida globalizada. E todas, sempre assinadas. Menos essa.

Lembro-me que uma dessas matérias sobre trânsito, transportes, ficou com apenas 92 linhas (naquela lauda datilografada nas antigas Olivettis, com 20 linhas de 70 toques). Entreguei o texto ao meu chefe de reportagem Miguel Jorge (hoje ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior). Ele bateu o olho nas laudas e as devolveu solicitando: “complete as 100 linhas”.

Até agora tudo bem! Ninguém sabia que eu tinha feito aquela matéria. Mas, precisava ir à Júlio Prestes, entrevistar pessoas, falar com o gerente da rodoviária, o mesmo que eu havia entrevistado para o JT.

Preparei algumas respostas para as eventuais perguntas indiscretas e parti para a missão, junto com um fotógrafo da casa.

Não era um fim de semana prolongado e o caos era menor. Então, consegui entrevistar passageiros contentes, principalmente porque iam visitar algum parente, voltar para sua terra natal. Atendia o objetivo da pauta, de falar bem da rodoviária. Até porque era a única. Imaginem uma cidade como São Paulo sem estação rodoviária? Não dá, não é mesmo.

Boas fotos, ônibus saindo no horário, guichês meio vazios. Tudo a meu favor. E o melhor, o gerente da rodoviária – aquele que entrevistei para o JT – não estava presente. Falei com um auxiliar dele que não me conhecia.

Fiz uma grande matéria, assinada e elogiada. E nem precisei mentir. Só encontrei um ponto de vista favorável. E todos ficaram felizes!

PROJETO FOLHA E EU

16 de agosto de 2010

por Cecilia Zioni

Aqui vão três episódios, de que participei aos tempos de introdução do famoso Projeto Folha, e, pelo menos para mim, foram a comprovação de que nem sempre o trabalho dignifica e enobrece. Principalmente quando é ilógico, inútil.

Primeiro: Nos plantões de fim de semana, caderno de Economia 99% fechado, o pessoal da editoria era destacado para pautas gerais. Ou pauta nada a ver, como se diria hoje. Num sábado qualquer, Célia Valente, Amundsen Limeira e eu estávamos de plantão. Célia recebeu a incumbência de acompanhar um concurso de barwomen num hotel central. Amundsen, uma apresentação de hipismo para crianças, no Parque da Água Branca. Não consigo lembrar qual era a minha pauta. Saíamos os três quando veio o recado do chefe de reportagem: “Vejam se dá pra aproveitar o mesmo carro…” Daí, o toque de gênio da Célia: “Vamos cobrir tudo, juntos”.

Voltamos umas três horas depois – com tempo pra cafezinho num local decente desta cidade. E, possivelmente pela primeira vez na história do jornalismo mundial, três notas, 20 linhas cada, foram escritas a seis mãos. Textos bem feitinhos, bem humorados, densos de informação. A tempo: nada foi publicado.

Segunda: Uma das coisas que mais odiava no jornal era formar “editoria especial”, como as da Política em tempos de eleição. Pela mesma razão: não me dou bem no banco de reserva. Pois numa dessas vezes, Dirce Martinho, então chefe de reportagem da Economia, resolveu sortear o indicado, depois de esperar inutilmente, o dia todo, por um voluntário. Escreveu os nomes em tiras de papel, que dobrou e misturou bem. Chamou um contínuo para pegar um. Sentada bem perto e, quando ela abriu o tal papelote, eu li, pelas costas, um C – de Cecilia! – e meu coração falhou uma batida enquanto ela lia: Gerson! Ufa!

Aliviada, mal me dei conta do que veio em seguida: o Amundsen, de pé ao meu lado, pegou-me pela mão e dançamos de pura alegria! Mas não esqueci o que veio depois: o editor de Política viu a cena e ficou indignado. Pediu punição à chefe e aos dançarinos. Alguém com a cabeça no lugar conseguiu reverter o caso, numa daquelas famosas reuniões de editores no 9º andar. Recebemos, os três, uma simples advertência.

Terceira: Outra das coisas que mais odiava no jornal era compor “editorias de emergência” – como as do tempo de caça ao carrasco Josef Mengele. O pessoal de Economia era café com leite nesses grupos e nenhuma  pauta mais importante lhe era confiada. Num sábado, pois, fui encarregada de tentar entrevistar a família que o “empregara” como caseiro. Detalhe: Mengele morrera em 1979 e sua ossada foi descoberta em 1985. Ou seja, eu teria de descobrir alguma coisa que acontecera pelo menos mais de dez anos antes. Cheguei às 8 horas. Dia frio, nublado. O endereço, confirmado pela chefia de reportagem, ficava numa vila do Brooklyn. Na tal casa, janelas fechadas. Cadeado no portão. Jardinzinho empoeirado, chão coberto de folhas secas, de jornais de uma semana, de folhetos de propaganda e de correspondência – sinal de que ninguém andava por ali, fazia tempo.

Avisei a redação (telefone público por perto, sorte! celular só apareceria anos depois) e recebi a incumbência: ficar de olho.

Às 10 horas, uma vizinha saiu e voltou logo depois, com saco de pão e de leite na mão.  Recusou-se a falar comigo. Às 11h30, dois garotos, de bicicleta, entraram na vila e deram uma voltinha. Achei que não era o caso de entrevistá-los. Às 12 horas, liguei pro jornal e ouvi a mesma ordem.

Nada mais ocorreu até que, pouco antes das 14 horas, chegam Helio Belik e fotógrafo para render a equipe precursora. Na redação, repito ao editor como fora a manhã. Ele me pede um relatório. Novidade pra mim, faço um texto livre, quase como este, contando que nada acontecera, que ninguém – exceto a dona de casa que fora comprar pão – se movia naquela vilinha, e, na casa dos ex-patrões de Mengele, só poeira e jornal velho.

Surpresa no domingo: o relatório foi publicado como box, em itálico…

MENGELE - O Anjo da Morte, responsável por testes genéticos nazistas, morreu no Brasil em 1979.

Uma bomba caiu no meu colo

13 de julho de 2010

por Nereu Leme

Na geral da Folha de S. Paulo, na década de 70, era difícil fugir das greves, do spray com pimenta da polícia e até mesmo das bombas. Bombas de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, sem contar a pressão psicológica dos agentes federais.

À época, trabalhei muitas vezes de paletó e gravata porque meu chefe dizia que eu precisava estar apresentável quando fosse entrevistar um prefeito ou governador, o que realmente aconteceu muitas vezes.

Reunião do sindicato na redação, eu era o único de gravata, sentado bem no meio do grupo.

Também cobri muito buraco de rua, polícia, favela e enchentes. Em uma delas, no Vale do Ribeira, estraguei um sapato novinho de camurça, mesmo fazendo muita entrevista de dentro do carro amarelinho da Folha, para não pisar no barro e na água.

Fiz matérias marcantes – para mim – de primeira página, página inteira, duas e até de quatro paginas, coisa inimaginável hoje em dia.

Lembro-me bem de uma cobertura de greve, chamada de manifestação da Panela Vazia, na qual donas de casa protestavam na praça da Sé, em frente à Catedral, contra a carestia. Deu-me muita dor de cabeça!

No começo foi uma grande curtição. Durante algum tempo, usei uma bolsa tiracolo (oh moda sem graça). A Ana Maria Leopoldo e Silva me lembrou outro dia, que era uma Fiorucci vermelha, argh…

Como nas bolsas femininas, nela também cabia de tudo. Na minha primeira cobertura de greve, e era greve pra todo lado, achei uma bomba de gás lacrimogêneo vermelha, bonitinha, da cor da minha bolsa. Guardei a primeira na minha gaveta da redação. Como um verdadeiro estopim, estava aí o início de uma coleção bizarra.

Fui juntando. Vermelha, verde, branca, azul, muitas cinzentas na cor e nas manchas da explosão e do gás que emanavam.

O Bóris Casoy, editor do jornal, se divertia. Quando eu chegava da rua, após mais uma cobertura de greve, perguntava: “Qual é a bomba da coleção de hoje?”

Até que um belo dia, na greve das Panelas Vazias, com muitas donas de casa, encontrei uma amarelinha, a mais bonita de todas. Parecia rara e faltava na minha coleção. Ocupado com a cobertura do corre-corre das mulheres, dos policiais e dos jornalistas que – como eu – tentavam fugir das bombas e da fumaça, joguei a bomba dentro da Fiorucci vermelha.

Já na redação, a primeira providência foi mostrar o novo troféu ao Bóris. “Nossa Senhora”, disse ele. “Esta bomba está com o prazo de validade vencido”.

Pronto! Estava aceso o estopim da bomba que caiu no meu colo.

O editor do jornal não teve dúvida. Mandou fotografar a bomba e colocou a foto, com uma legenda, no alto da primeira página: “Polícia Federal usa bombas com prazo vencido, contra mulheres indefesas na praça da Sé”. Jornalisticamente foi ótimo para mim e para o jornal. Abordamos um ângulo diferente das greves.

Pessoalmente, foi como se uma bomba – a própria com seu prazo de validade vencido e efeitos inesperados – tivesse caído no meu colo. Logo, a polícia federal me convocou para saber onde, como, quando e porque eu conseguira a bomba amarela.

Foi uma sucessão de depoimentos na PF de Higienópolis. Primeiro queriam que eu admitisse que algum grevista havia jogado a tal bomba. Depois de vários depoimentos, tentaram me forçar a confessar que eu é que tinha plantado a bomba. Foi uma tortura sem fim.

Em todas as “visitas” à PF, o Bóris Casoy me acompanhou até a antessala. Ele não podia assistir aos depoimentos. Passado algum tempo, o assunto foi esfriando, as greves diminuindo e pararam de me convocar.

Até a nossa própria greve, em 1979. Comecei fazendo piquete na porta da Folha de S. Paulo e depois – sabiamente como outros colegas – promovemos a troca. Nós, da Folha faríamos piquete na porta do Estadão e vice-versa. Lembro-me que tentei convencer o atual ministro Miguel Jorge (que foi meu primeiro chefe de reportagem no Jornal da Tarde e era – então – diretor de redação do O Estado de S. Paulo) a não entrar para trabalhar. Ele havia sido chamado às pressas de uma viagem que fazia ao Exterior. Argumentou que seu cargo era de confiança e por isso deveria ajudar a colocar o jornal nas bancas.

Durante nossa greve, um agente da PF – fazendo-se passar por um amigo de um companheiro de profissão – me chamou para um café no bar e me confidenciou – ou tentou intimidar – dizendo que a minha ficha na PF era quilométrica.

Bom, nossa greve não durou, foi infrutífera e a PF finalmente me esqueceu. Joguei as bombas na última gaveta da minha mesa na redação (um arquivo morto), até o dia em que a deputada Ruth Escobar, então presidente de uma associação dos direitos humanos visitou a redação da Folha. Bóris Casoy contou a ela sobre minha coleção de bombas. Ruth Escobar levou todas para uma apresentação nessa associação e nunca mais as devolveu.

Cinco em um

28 de junho de 2010

por Nair Keiko Suzuki

Nair Suzuki, grávida da Naomi, em evento com Carlos Mestieri e Nicolau Amaral

Na linha do “Êta profissão divertida”, da Jane Soares, e do “Baby Boom na Folha”, da Cecilia Zioni, selecionei cinco historinhas do meu tempo de Folha. Duas delas falam do Claudio Abramo, exigente e mal humorado diretor de Redação. Ele era temido por todos, pois chegava apoiado em sua bengala, reclamava de tudo e de todos e raramente ria. Mas competentíssimo, ícone do jornalismo, me orgulho de ter trabalhado com ele.

A outra história lembra um episódio envolvendo o colunista social Tavares de Miranda, seu assistente Walter Domingos e Maria Cristina Caldeira, que rendeu uma lição do tipo “não publicar nada antes de ler o texto”.

A quarta historinha envolve o Bóris Casoy e o Ricardo Kotscho. É bastante provável que não passe de piada, como desforra, já que o Bóris sempre foi muito brincalhão e gostava de aprontar com os coleguinhas, imitando políticos e o próprio dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira.

Por fim, a última lembra uma das passagens do hoje senador Eduardo Matarazzo Suplicy, pela Folha. Ele enchia de alegria a editoria de Economia com seu jeito simples, ingênuo até, e muito distraído. Derrubava cadeiras com sua pesada pasta recheada de papéis, ao terminar seu artigo do dia e ir se despedindo de costas dos colegas da redação que ficavam editando o jornal. Zeloso, ligava depois de sair inúmeras vezes para corrigir um número, trocar uma palavra por outra mais expressiva ou, simplesmente, cortar uma vírgula. Não raras vezes pedia para entrar em contato com a gráfica para fazer uma correção no texto que já estava sendo composto.

A seguir, as historinhas:

1. Casada com o Oscar, tive dois filhos (Naomi e Jun) enquanto trabalhava no Folhão. Por volta de abril de 1979, grávida do Jun, entro no elevador do prédio da Barão de Limeira com um barrigão de oito meses. Em seguida, entra o Cláudio Abramo, diretor de Redação da Folha. Ele olha direto para a minha barriga e, com aquele humor ácido, dispara: “A senhora tem dois filhos por ano?” Não me deixei intimidar e respondi: “Não, Cláudio, a minha filha já está com um ano e meio de idade”. “Huuuuuum”, recebi como resposta.

2. Ainda sobre o Claudio Abramo: ele tinha uma campainha, dessas de madame chamar a criada para trazer o azeite à mesa, que fazia soar sempre que queria chamar um contínuo. Quando estava de mau humor (e era freqüente), ficava impaciente e tocava insistentemente a maldita campainha. Um belo dia, os contínuos foram à desforra. Colocaram na tal campainha cola do gomeiro da redação, usado pelos repórteres para grudar as laudas uma às outras, e ficaram à espreita. Quando o Cláudio acionou a campainha, não teve som. Ele insistiu, tocou por inúmeras vezes, até perceber que o sininho estava colado. Nervoso, não teve dúvidas: arremessou longe a pobre campainha. Foi assim que os contínuos se livraram do irritante TRIM-TRIM-TRIM…

3. O colunista social Tavares de Miranda tinha um assistente, Walter Domingos, que o ajudava a montar sua coluna que saía diariamente na Folha Ilustrada. Tavares passava as notas e o Waltinho ia colocando-as na coluna. Com o tempo, o processo passou a ser automático. Um belo dia, Maria Cristina Caldeira, filha do Carlos Caldeira, manda um bilhete: “Seu Tavares, peço interceder em favor do meu namorado, fulano de tal, que estuda Engenharia no Mackenzie e precisa de tantos pontos para passar em tal matéria. O nome do professor é beltrano”. Sem lê-lo, talvez por achar que se tratasse de um pedido de publicação de nota, Tavares passa para o Waltinho, que automaticamente a inclui na coluna. A única vítima foi o fulano, que tomou bomba na tal matéria.

4. A redação da Folha de S.Paulo tinha vários jornalistas que mancavam, com problemas nas pernas. A começar pelo editor-chefe do jornal, Bóris Casoy, que teve paralisia infantil. Por um motivo ou outro, também mancavam o Adilson Laranjeira, o Zé Aparecido, o Domingos, o Chico Lataria… Diziam que o Bóris tinha uma grande simpatia por quem tinha defeito nas pernas. E que, por isso, quando foi recomendado, não hesitou em contratar o grande repórter Ricardo Kotscho . O Bóris entendeu que o nome dele era Ricardo Coxo… Deve ser piada, mas que correu essa versão, correu.

5. Economista formado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e deputado eleito, Eduardo Suplicy Matarazzo tinha uma coluna na seção de Economia da Folha. Ele era distraído e preocupado em dar explicações de todas as suas atitudes. Por isso, o Bóris Casoy adorava brincar com ele. Um dia, Bóris recortou uma página do jornal que trazia um homem na praia, de costas, pulando ondas que puxavam uma das laterais do calção de banho, deixando à mostra parte maior da coxa . Pendurou a página no quadro de avisos, ao lado da máquina de bater ponto, com o comentário: “Olha o decoro, parlamentar!”. Suplicy, que tinha uma casa na praia de Picinguaba, no litoral Norte, olhou a página, achou mesmo que era ele o fotografado e tentou se justificar. “Não me lembro de a onda ter quase levado o meu calção”, comentava. “Pode ter sido numa hora de distração”, “ou quando a maré subiu…” continuava, enquanto o Bóris o ouvia sério, procurando conter a vontade de dar gargalhadas.

No jatinho das diretas

18 de junho de 2010

por José Luiz Teixeira

Da esquerda para a direita, José Luiz Teixeira, os senadores Marcos Freire e Mauro Benevides, o deputado Freitas Nobre, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, e Mauro Motorim, no aeroporto de João Pessoa.

Depois dos “posts” das Cecílias, não resisto à tentação de revelar que o feminismo demorou a chegar à Editoria de Política da ‘Folha’ onde, até os anos 80, só trabalhavam homens.

Menos mal para mim, pois com certeza não teria conseguido a vaga de repórter político, em 1979, se tivesse de concorrer com as meninas da época, entre as quais, além das competentíssimas colegas deste blogue, estava Dora Kramer, então na “Agência Folhas”.

Foi como repórter político que fiz algumas coberturas históricas, como a viagem pelo Nordeste no jatinho de Ulysses Guimarães, em campanha pelas eleições diretas.

Viajavam no pequeno avião o deputado Ulysses Guimarães, sua mulher, Mora, e seu assessor particular, Mauro Motorim. No caminho, ele ia dando carona para diversos políticos, entre os quais, Freitas Nobre e Miguel Arraes.

Na volta, deu carona para o Lula. Viemos de Fortaleza a São Paulo idealizando o grande comício de um milhão de pessoas no Anhangabaú. Eu digo “viemos” porque, confesso, não resisti e acabei dando alguns “pitacos” na conversa.

Depois de vários dias viajando com o Dr. Ulysses, eu já estava íntimo o suficiente até para dar palpites.

Mas quando percebi que estava excedendo meu papel de jornalista, retornei à minha insignificância e me calei – não falava, mas como o papagaio da piada, prestava uma atenção…

Nessa primeira viagem – houve uma segunda, coberta pelo Ricardo Kotscho – foram realizados comícios em Recife, Fortaleza, João Pessoa e uma quarta capital nordestina que nem me lembro mais.

A cobertura não era fácil. Eu tinha de deixar o local da manifestação até as 19h e “voar” para o hotel ou sucursal (se é que se podia chamar algum escritório da “Folha” no Nordeste de “sucursal”) para redigir a matéria.

Preenchia umas 30 linhas na minha Remintgon portátil (o lapitópi de antanho) e enviava para a redação, por telex ou telefone, até as 21h, meu “deadline’.

Ocorre que era nesse horário que o comício estava esquentando. Eu tinha de adiantar alguns discursos e, o mais importante, o número de pessoas presentes.

Os discursos até que não era difícil prever, pois eram sempre os mesmos. O tamanho da platéia é que era o xis do problema.

Eu fazia o seguinte: lá pelas 18h45, calculava quantas pessoas estavam presentes (quatro por metro quadrado) e dobrava o resultado.

Chegava, dessa empírica maneira, a um número razoável de participantes, sempre dando uma margem de erro para cima.

Mesmo assim, quando voltei, reclamaram que eu havia “subestimado” o número dos participantes dos comícios.

O contraponto da luta feminista à violenta repressão dos anos 70

9 de junho de 2010

por Cecilia Pires

Eva Tudor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Benguel.

Em ano de eleições, com uma acirrada corrida às urnas cabeça a cabeça, onde pela primeira vez na história deste País, não apenas uma, mas duas mulheres concorrem à Presidência, uma delas disputando o primeiro lugar, a discussão sobre a questão de gênero vem a calhar.

Difícil superar a maneira deliciosa como a minha xará Cecilia Zioni situou historicamente o papel da mulher no jornalismo, enfocando-o sob o aspecto da maternidade e fazendo cruzamento com a economia. A relação deste emblemático acontecimento na vida de 99% das famílias e seus impactos sobre o mundo do trabalho só começa a ser mais bem compreendida no mundo corporativo – e discutida – neste século vinte e um.

Mas foi graças a “chefes” , na verdade muito mais companheiros de jornada, autênticos líderes na acepção da palavra, como o Cafardo, (e, faça-se justiça, ao Adilson Laranjeira, que foi um bom chefe com as grávidas, mas não dava moleza) que as jovens mães e pais dos anos 70/80 puderam conviver pacificamente nas redações com suas pautas, entre o corre-corre da redação, as mamadas, os furos de reportagem e as bombas de gás lacrimogêneo das passeatas dos duros anos da ditadura. Das quais, aliás, nem as grávidas como a Ana Leopoldo e a Jane Soares escaparam, nem nunca tentaram, ávidas por uma boa cobertura. Que tempos!

Mas tudo isso para ingressar no tema do Gênero, e espero que vocês, meninos, não se aborreçam pelo fato do clube das “luluzinhas” monopolizar pela segunda vez em seguida o tema. O link que eu queria propor como reflexão entre o passado e o presente é a discussão política de gênero hoje e nos anos de chumbo, em meados da década de 70, quando dois jornais feministas despontaram no Brasil como contraponto da luta feminista e social à violenta repressão a toda forma de liberdade de manifestação e expressão. E o foco que eu quero dar não é o feminismo em si, mas a imprensa e o papel das mulheres nesta luta.

Eram dois jornais: Brasil Mulher e Nós Mulheres. Fiz parte do primeiro, mais como tarefeira, colhendo informações para a pauta, redigindo aqui e ali, uma foquinha na vida política e na redação de jornais, sobretudo num órgão alternativo extremamente politizado, integrado por intelectuais, ex-exilados políticos, ativistas. Eu apanhava para entender tudo aquilo e confesso que era tarefa quase inglória para meus vinte e poucos anos.

Os dois jornais retratavam, em seus artigos e editoriais, a luta pela anistia, pelas creches e pelas liberdades democráticas e incluíam matérias específicas, tais como violência doméstica, condições de trabalho das mulheres, direitos reprodutivos, sexualidade.

Os jornais começaram a se organizar em 1975, por decisão da ONU, o Ano Internacional da Mulher. Foi também em 75, em outubro, que o jornalista Wladimir Herzog, que me dera uma das primeiras oportunidades na extinta revista Visão, como freelancer, assim que eu me formara, foi assassinado na prisão pelas forças do regime militar. O fato foi decisivo para que eu, superprotegida pela família, acordasse para a situação do País. Nunca mais pude ver as coisas da mesma maneira.

Se não me engano, os dois jornais começaram a circular em 1976.

A linha dos jornais era ampla, como relatei, funcionando como uma frente que combatia o regime, e havia divergências tênues entre as linhas políticas dos dois, pois ambos eram integrados por ativistas de esquerda. Duraram até o início dos anos 80, mas o suficiente para preparar os novos quadros de mulheres para os novos partidos políticos criados com a abertura de 1979, as Organizações Não Governamentais (ONGS), os conselhos estaduais da condição feminina, e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

Algumas de suas integrantes faziam parte da elite intelectual do País, com um trabalho importante na universidade, na política, nas entidades governamentais ou instituições internacionais de pesquisa, como Dona Ruth Cardoso, (Jornal Nós Mulheres), Carmem Barroso, Carmen da Silva, Eva Alterman Blay, Fúlvia Rosemberg, Heleieth Saffioti, Maria Rita Kehl, Ruth Escobar, entre tantas outras. Ajudaram a pavimentar um caminho importante na vida política e na vida das instituições brasileiras, lutando contra a ditadura num primeiro momento e depois construindo as pontes para a organização da sociedade. Acima de qualquer divergência ou discordância política, eu admiro profundamente essas mulheres, por tudo o que fizeram e (muitas) ainda fazem.

Finalmente, uma das linhas mais interessantes de reflexão que tenho visto é a relação ao longo da história entre a noção de gênero e seu par biológico e político, a noção de raça. Os americanos estão mais familiarizados com esta discussão, onde as mulheres negras colocam suas posições feministas e raciais muito claramente.

Quem acompanhou a campanha presidencial americana certamente se lembrará dos momentos anteriores à fase consagradora de Obama, quando as pesquisas ainda se equilibravam, revelando a dúvida do eleitorado democrático mais politizado: afinal, melhor eleger uma mulher ou um negro? O que representaria o voto mais engajado naquele momento político da nação americana? Talvez a história dos EUA tenha mostrado que consagrar um negro lavaria os pecados do passado racista da nação, mas Obama teve consciência histórica e visão politicamente correta não apenas ao alçar Hillary Clinton Secretária de Estado num dos postos mais importantes de seu governo, como em nomear várias figuras femininas em cargos decisivos para tocar sua administração.

Ainda veremos essa discussão esquentar muito no País, mas voltando a nossa profissão, hoje as redações são ocupadas por maioria quase absoluta de mulheres. Se isto é ou não um bom sinal para nós, isso é outra questão, que deixo para alguém discutir em outro texto.

O fato é que sexo e raça, quer nós queiramos ou não, são marcadores sociais que definem nossos papéis. E como diz a Marisa Correa, (jornalista que foi responsável pela publicação do jornal Nós Mulheres, e de quem surrupiei algumas informações importantes, para não confiar na memória), embora seja inerente à condição humana, ainda tem gente que acha que gênero é escolha. (bem, considerando-se apenas a origem genética, claro). Ela se lembra do comentário de um renomado antropólogo brasileiro ao assistir a seu vídeo de pesquisa sobre a história da antropologia: “Interessante, mas tem muita mulher…”